NEIN

Nein!

Vou me virando por aqui, na Alemanha, enquanto não domino o idioma – coisa que certamente irá acontecer dentro de dois ou três… séculos.

O difícil não é a parte de elaborar frases simples como “por favor, um café e um sanduíche de queijo”. O duro mesmo é o que vem depois disso: as perguntas. Não importa o quão direta ou objetiva ou decidida eu seja na hora de, por exemplo, pedir algo para comer, sempre me fazem alguma pergunta que soa mais ou menos assim: “schulendermithauffenhausenschatstern?”, bote aí bastante garganta arranhando e sons graves vindo da lateral esquerda do esôfago que um latino dificilmente conseguirá reproduzir.

Pra sobreviver e tornar o analfabetismo menos doloroso no dia a dia, fui desenvolvendo técnicas e lançando mão de truques. Logo após pedir algo numa padaria ou lanchonete, é comum o atendente perguntar se é para comer ali ou para levar, então já embuti no pedido a frase que explicita meu desejo de comer ali, ou longe dali. Isso elimina quaisquer outros questionamentos por parte do alemão atrás do balcão? Não. Mas em poucas semanas creio que cobrirei tudo, como por exemplo: “Açúcar? Quer o café forte? Pequeno ou grande? No copo de papel ou quer comprar esta linda caneca por €2 e deixar de produzir lixo?”. É uma luta diária, mas estou confiante.

No supermercado – destino frequente de quem precisa economizar cada centavo – o grande lance é a nota fiscal. Aparentemente não é automático, como é no Brasil, o caixa entregar a nota de compra logo que esta é finalizada. Depois de pagar, você normalmente é perguntado se quer a nota ou não. Numa próxima vou contar detalhes sobre o stress que é passar as compras no caixa de supermercado. Isso por si só dá uma crônica, um conto, um livro, um romance, uma tese de mestrado.

Logo após minhas primeiras incursões aos supermercados Hamburgueses em busca de comida boa e barata, aprendi que existem 326 formas diferentes de perguntar “quer sua nota fiscal”? Obviamente desisti de entender todas elas e assumi que esta é a única frase possível de ser ouvida após as compras.

Enfim, já treinada, independentemente da forma que me é feita a pergunta, respondo  de forma automática sim ou não para o recebimento da nota. Sempre funciona? Não.

Na última segunda-feira a caixa ficou bastante perplexa diante do meu sonoro “nein”. Eu não entendi o porquê do choque, até que, com a ajuda de uma nova amiga alemã, descobri que, na realidade, o que a sorridente caixa do supermercado me disse foi: “volte sempre”.

Eu basicamente arruinei o meu relacionamento com a caixa do supermercado perto da minha casa. Mas tudo bem, assim que eu dominar o idioma, eu explico tudo pra ela – coisa que certamente irá acontecer dentro de dois ou três… séculos.

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CURTINHA: DESAFIO

Minha irmã me propôs um desafio: que eu parasse de reclamar durante uma tarde inteira.

Não sei de onde ela tirou que eu reclamo. Eu apenas observo o comportamento estapafúrdio e inconveniente de algumas pessoas e eventualmente verbalizo para quem está próximo, o resultado das minhas análises. Mas ela, jovem ainda, com apenas 19 anos, acha que eu reclamo demasiadamente. Fica evidente que minha irmã pouco entende das coisas da vida e do universo dos adultos.

Eu então teria que passar toda uma tarde impedida de reclamar de qualquer pessoa ou situação, por mais esdrúxula que fossem. Caso não conseguisse cumprir o tal desafio, deveria pagar à ela uma “multa” (lê-se extorsão) de R$50.

Pois talvez você queira saber se deu certo. Mas é evidente que deu!

O aplicativo para celular do meu banco é ótimo. Pouco depois das 18 horas o dinheiro já estava em sua conta.

NA PRÓXIMA VIDA

Reencarnação

Na próxima vida eu quero saber, aos 23, tudo o que eu sei aos 33.

Aos 30 quero olhar para trás e pensar: “nossa! Tô arrasando!”. Quero ter a sensação que o tempo está sobrando. Não o contrário.

Na próxima vida eu quero falar tantos idiomas quanto achei que falaria nesta. Quero poder repetir destinos de viagem porque, afinal, terei tempo para visitar todos os cantos do mundo e voltar nos melhores deles.

Na próxima vida quero ter 10 centímetros a mais e usar umas roupas que eu não posso usar nessa vida, por que tenho 10 centímetros a menos.

Na próxima vida eu quero desde cedo saber que eu posso ser quem eu quiser, ainda que seja uma mulher. Ah, é! Na próxima vida eu também quero ser mulher.

Na próxima vida eu espero não ter mais que ficar explicando (nem entendendo) o que é feminismo.

Nem misoginia. Nem homofobia. Nem racismo. Nem machismo. Nem extremismo.

Nem vegetarianismo.

Na próxima vida eu já quero vir sabendo que tem que poupar 10% do salário e começar a poupar 10% mesmo antes de ter salário.

Na próxima vida, aos 30, eu já vou esbanjar uma bela carteira de investimentos, um passaporte abarrotado de carimbos, um currículo bem gordo cheio de cursos e experiências e uma pele de quem começou, aos 25, a usar cremes anti-idade.

Na próxima vida eu posso até vir com o mesmo cabelo, mas com um terço a menos em quantidade.

Na próxima vida eu quero ser uma pessoa muito cool. Vou velejar num barco de casco azul, dirigir um Land Rover e cuidar de bebês rinocerontes na África. Quero fazer expedições e ter fotos na National Geographic. E surfar. Na próxima vida eu vou surfar.

Antes de entrar na faculdade da próxima vida, vou passar um ano como voluntária em algum lugar que precise muito de uma voluntária.

Na próxima vida eu terei um cachorro chamado Fünf.

Na próxima vida já quero vir chipada. Já pensou cada upload?!

Na próxima vida já quero vir chipada. Já pensou cada download?! De tempos em tempos jogar fora as tranqueiras da cabeça tudo.

Eu não vou assinar a NET na minha próxima vida.

Na próxima vida eu preciso ter menos manias. Não que eu queira, mas eu preciso.

Na próxima vida eu quero encontrar todos os amigos dessa vida de agora. Posso até fazer amigos novos, amigos da próxima vida, só para poder apresentar para os amigos dessa.

Na próxima vida quando eu amar alguém não vou fingir que não amo. Já vou logo avisando: “ó, tô amando!”.

Na próxima vida eu vou esperar até uns 27 para fazer a primeira tatuagem. Mas acho uma boa já começar a fazer terapia aos 23.

Na próxima vida eu quero entender sobre política muito antes de começar a votar. Na próxima vida eu vou votar assim que puder.

Na próxima vida eu quero não saber quem foi Trump. Nem Bolsonaro. Nem PT. Nem PSDB. Nem P coisa nenhuma.

Na próxima vida eu quero ter que olhar no dicionário para saber o que é corrupção.

Na próxima vida eu quero nascer exatamente no lugar aonde eu não vou querer morar, assim posso mudar para onde eu quero muito morar e ser muito feliz de morar lá só porque eu escolhi que era lá que eu queria morar.

Na próxima vida eu pretendo pagar o IPVA do carro direitinho.

Na próxima vida eu não quero ter medo de aranha.

Eu quero beber água de coco desde cedo, na próxima vida.

E também quero vir com um fígado reforçado. Vou entrar na Gim-tônica antes dos 33.

Na próxima vida eu não vou ser capaz de engordar. Pronto. Simplesmente. Não engordo. É isso.

Na próxima vida eu quero suar menos. E quero continuar gostando do inverno.

Tomara que na próxima vida ainda seja moda usar saia com meia-calça. Se não for, vou usar assim mesmo. Vai que eu lanço moda e ainda posso chamar de retrô.

No final da próxima vida eu quero ter cabelos branquinhos, usar grandes óculos coloridos e fazer cerâmica por hobby nos fundos da minha casa amarela na Toscana.

Na próxima vida eu acho melhor eu fazer as coisas nessa própria vida ao invés de ficar pensando o que fazer na próxima depois dela.

GLADIS

imortal

Gladis completou 168 anos na última quarta-feira. Dois dias antes de sua morte.

Os médicos, isso lá em 1849 quando Gladis nasceu, avisaram logo a família que havia algo estranho com a menina. Mas não se sabia o que era. Quando Gladis chegou aos 8 anos, devido aos avanços da medicina e da botânica, o Dr. Hanz Zinza finalmente descobriu o distúrbio e comunicou: Gladis fora assolada por uma raríssima síndrome, a imortalidade crônica. Gladis era literal e definitivamente imortal.

Segundo Dr. Zinza, Gladis desenvolveria-se normalmente até cerca de 31 anos e depois permaneceria igual, para toda a eternidade.

Durante anos Gladis procurou saber mais sobre a sua condição. Viajou o mundo, submeteu-se a incontáveis exames, virou cobaia, objeto de estudo, atração de circo, mas nunca descobriu nada muito além das alegações de Dr. Zinza.

Tudo o que Gladis queria era morrer. E não foi por falta de tentativas, ela se jogou na linha do trem, pulou da ponte, cutucou uma onça com vara curta, esturricou no deserto do Saara, mas nada levou de Gladis a vida que ela tanto menosprezava. Gladis achou que jamais conseguiria conquistar o sonho do descanso eterno.

As implicações da imortalidade são inúmeras, mas a que mais enervava Gladis era não envelhecer fisicamente. Pois o enxuto e saudável corpo de formas arredondadas e firmes de 31 anos de Gladis, abrigava atualmente uma mente cansada e rabugenta de uma relíquia humana de mais de 150 anos.

Gladis queria cabelos brancos, queria dores nas articulações, queria calos nos pés, verrugas no nariz. Queria ser preferencial na fila do supermercado, usar a vaga para idosos, ganhar descontos e a paciência das pessoas a sua volta. Pode parecer horrendo, mas como qualquer coisa na vida que não se tem, era o que Gladis queria. Envelhecer. Mas Gladis não podia.

Viu todos a sua volta partirem, festejou algumas perdas, lamentou outras. Viu as guerras, viu barbáries, viu os avanços exponenciais da tecnologia, viu o mundo mudar. Gladis viu tudo, menos um fio de cabelo branco brotar-lhe no alto da cabeça.

Amores? Gladis teve muitos, vários. Ela não complicava. Nem se apegava. Ia até onde dava e depois sumia no mundo sem dar explicações. Gladis viajara o mundo todo.  Três vezes.

Uma das diversões de Gladis era suscitar, durante reuniões com amigos, a discussão sobre o que eles fariam caso fossem imortais. Ela adorava rir das respostas tolas e aproveitava para pegar algumas ideias para si própria. Quando perguntada sobre o que faria caso fosse imortal, Gladis sempre respondia que passaria a eternidade tentando descobrir uma forma de morrer, levando todos às gargalhadas, mas Gladis não achava a menor graça.

Em busca de respostas, da cura, de casos parecidos com o seu, ou da descoberta de uma maneira de ser vencida pela finitude, Gladis subiu ao topo dos montes mais remotos do planeta procurando por sábios, budistas, hinduístas, xamanistas. Visitou os mais renomados cientistas, esotéricos, umbandistas e religiosos. Seguiu céticos, mágicos, políticos, sacerdotes, curandeiros, charlatões. Ninguém nunca conseguiu revelar o segredo da mortalidade de Gladis. Certa vez, a chefe de uma tribo nativa da parte mais longínqua da África, disse à Gladis que ela finalmente morreria quando realmente fizesse tudo aquilo que tinha que fazer.

Convencida de que não havia mesmo solução para sua condição eterna, Gladis decidiu buscar por outro sentido para a vida que não a morte. Escreveu livros, ajudou pessoas, plantou árvores, doou sangue, doou um rim – que nem lhe fez falta já que seis meses depois havia outro no lugar. Gladis deu cursos e palestras. Protegida pela impossibilidade do fato, adorava ver todos da plateia rirem quando afirmava ser imortal.

Gladis completou 168 anos na última quarta-feira. Dois dias antes de sua morte. Ninguém sabe ao certo o que aconteceu, Gladis foi encontrada em sua casa, com semblante tranquilo, sentada no sofá. Em suas mãos havia um livro cujo título dizia: 1001 coisas que você precisa fazer antes de morrer.

CURTINHA: OFTALMO SINCERO

Fui ao oftalmologista. Não ia há séculos, estava certa que sairia de lá com um belo par de fundos de garrafa.

– Visão de águia! – Exclamou o médico, pra lá de seus 60 anos, ao atestar minha capacidade de identificar letras do tamanho de grãos de arroz, projetadas numa parede a 2 metros de distância.
– Aahh – suspirei desapontada.
– Ué! Ficou triste por quê?
– Bem que eu queria usar óculos. Acho charmoso.
– Moça – tirando os óculos e esfregando os olhos, demonstrando certa impaciência – você precisa de um psiquiatra, não de um oftalmologista.

Credo gente! Pensei.

Sai de lá com uma receitinha mequetrefe de colírio e com a certeza que cega não estou, mas doida…

TE CONTEI?

Da Suzan, a bicicleta?

Sorteio de rede social é a coisa mais insólita que existe. Quando é sério mesmo tem oitocentos mil participantes e as suas chances de ganhar alguma coisa são menores que mínimas.

Ciente deste fato, decidi participar do sorteio de uma bike fabulosa via Instagram. Era fim de ano e o sorteio seria realizado “ao vivo” na própria rede social em janeiro. Fiz o que mandava o regulamento e esqueci completamente.

Eis que em janeiro, enquanto estava na casa de um casal de amigos na praia, fui dar aquela sapeada à toa no celular quando percebi o maior estardalhaço no Instagram. Mil notificações, mensagens, um escândalo, o maior incêndio e eu lá na janela, tomando uma brisa do mar.

No vídeo, publicado pelo pessoal da loja de bicicletas, tiraram um papelzinho dobrado de dentro de um pote de vidro e abriram o papelzinho para a câmera, e o que estava escrito no papelzinho? Meu nome. O meu nome. Meu. Nome e sobrenome. Era eu! Mesmo.

Você já ganhou algo num sorteio? Pois antes disso eu nunca ganhei nada num sorteio. Nada. Nem panela de pressão em sorteio de quermesse. A emoção foi tanta que dei um grito que pode ser ouvido no Chile.

Não satisfeitos em me dar uma bicicleta de presente, me deram uma bicicleta personalizável. Fui até a loja, mandei montar a bike do jeito que eu quis e saí de lá pedalando. Pensa numa criança que ganhou o presente de Natal mais legal do planeta. Era eu pedalando a Suzan. Dei esse nome pra ela, Suzan.

Fui parada algumas vezes por pessoas querendo comprar a Suzan. Uma vez quase pensei em vender mas o cara chamou Suzan de “rosa”. Suzan não era rosa, era branca. Eu e Suzan, a bicicleta branca, fomos muito felizes saracoteando juntas pelas ruas e ciclovias de São Paulo.

SuzanSuzan.

COOKIE

cookies

Foi a primeira vez que eu precisei usar aquele saquinho de emergência do avião. Sabe aquele saquinho? Que fica no bolsão da poltrona a sua frente, para, digamos, emergências? Então, esse.

Entrei no avião e logo acomodei-me na minha poltrona na janela. Anos viajando a trabalho duas vezes por mês me encheram de manias, como por exemplo voar sempre do lado direito e na poltrona F. De preferência na 24. 24F. Psicoses à parte, observava distraída os funcionários do aeroporto finalizarem os procedimentos de solo, circulando como formiguinhas atarefadas em torno do avião, quando ao guardar o celular encontrei um cookie na minha bolsa.

No dia anterior, enquanto me aventurava pelas ruas do centro de Curitiba, deparei-me com um café esquisitíssimo. Parecia um daqueles saloons que a gente vê em filme de velho oeste americano, com um ar meio assombrado, meio abandonado. Parei em frente para pensar se deveria mesmo entrar, quando de lá de dentro saiu um grupo de jovens barulhentos e animados. Me senti encorajada e entrei. Ali tomei um delicioso espresso duplo e comi um pão de queijo. Um cookie cheio de bolas gigantes de chocolates assobiou para mim. Só sei que o tal do cookie foi parar na minha bolsa, pernoitando ali discretamente até ser redescoberto na poltrona 24F do voo Curitiba São Paulo.

Aquela hora não poderia ser mais apropriada para encontrar um cookie de chocolate. Foi como encontrar R$100 no bolso de um casaco quando se está muito sem grana. O voo era num horário estapafúrdio, comer uma guloseima fora de hora parecia uma ideia fabulosamente fabulosa.

Dei uma dentada caprichada no cookie. Digna de nota. As enormes gotas de chocolate, embora amanhecidas, pularam do biscoito direto para as minhas papilas gustativas, me levando a fechar os olhos involuntariamente, tal deleitosa sensação de prazer. Mastiguei, mastiguei e concluí que o cookie era muito doce. Bom, mas muito, muito doce.

Não deu tempo de o cérebro processar a informação “pare de comer agora, alerta de doce extremo, alerta de doce extremo” e meus braços levaram o biscoito, cujo invólucro, um papel engordurado, encontrava-se quase totalmente destruído, diretamente para a minha boca. Mais uma dentada que só não acabou completamente com o disco açucarado pois aquilo era realmente um super cookie.

Mastiguei, já meio de má vontade, o que agora deixara de ser um saboroso cookie e tornara-se uma bola de açúcar União. Nesse meio tempo o avião já havia decolado e provavelmente sobrevoava Registro. Todos os passageiros em silêncio, aquele voo tranquilo e eu ali com aquele treco soltando farelo pra tudo que é lado, as mãos completamente engorduradas, fazendo um esforço enorme para engolir aquela última e fatal mordida que eu dera de forma tão imprudente.

Só sei que lá por Juquitiba aquilo foi me embrulhando, me embrulhando, não duvido que eu estivesse ficando esverdeada. Permanecia imóvel em meu assento para evitar arremessar migalhas no distinto senhor que estava ao meu lado, mas ia ficando cada vez mais desesperada sem ter aonde por aquele cookie cujo cheiro melado me embrulhava mais e mais. A comissária mais próxima estava ocupada com o serviço de bordo relâmpago da ponte aérea, não podia pedir ajuda a ninguém.

Estava chegando no limite quando avistei, penduradinho próximo aos meus joelhos, o saquinho plástico na cor branco celestial. Nele estava escrito em azul: “feel better” e havia uma carinha sorrindo logo abaixo. Que amável aquele saquinho! Um salvador! Não tive dúvidas, passei para a mão esquerda as migalhas que equilibrava na direita, entrelacei os dedos de modo a segurar o que restava do papel engordurado com um pedaço remanescente daquele biscoito do capeta e inclinei o corpo ligeiramente para frente, o suficiente para agarrar o saquinho providencial que facilmente soltou-se do elástico frouxo do bolsão do encosto da cadeira da frente.

O homem elegante que estava ao lado me olhou de soslaio. Pude sentir a vibração de seu pânico vindo em minha direção, ele usava um elegante paletó azul petróleo de veludo.

Os cinco dedos da minha mão direita, a única disponível, multiplicaram-se por 3 quando não sei como, consegui abrir a boca do saquinho plástico. Nessa altura a moça sentada no corredor ao lado do homem de paletó e a moça do corredor da outra fileira já assistiam a cena com expressões desafortunadas. Ágil, muito ágil, descarreguei tudo no saquinho branco.

Tudo. Foi a embalagem de papel, foi o último pedaço do cookie, foram as migalhas, o guardanapo amassado, uns pedaços do biscoito que já estavam escapando por entre os dedos, tudo. Tudo o que tinha nas mãos. Tudo aquilo de que desejei tanto me livrar. Deu até para usar a mão direita para dar uma “varridinha” na palma da mão esquerda e me livrar de todo e qualquer vestígio daquele cookie asqueroso e de seu cheiro enjoativo. Assobiando, fechei o saquinho que estava elegantemente apoiado sobre minhas pernas com o cordão que existe ali para este propósito e respirei aliviada. Respiraram aliviados também o paletó azul petróleo de veludo, o homem elegante e as moças do corredor.

Foi parar de sentir aquele cheiro nauseante que já comecei a voltar ao normal. A comissária agora aproximava-se com seu carrinho metálico, oferecia para os passageiros um pacotinho com sabe-se lá o que dentro, aquilo é uma loteria. Eu queria mesmo era água. Um copão de água gelada. Fiquei animada quando ela finalmente dirigiu-se a mim. Antes mesmo que eu pudesse transmitir-lhe meu desejo, ela sorriu roboticamente e disse:

Cookie senhora?

PRECISAMOS CONVERSAR

INferno

Odair tropeçou na ponta do tapetinho do chão do banheiro, deu com a testa na quina da pia de granito e caiu no chão. Sob sua cabeça rapidamente formou-se uma enorme poça de sangue.

Odair acordou num lugar escuro, de odor pestilento, muito quente e barulhento. Confuso, vagou por algum tempo sem avistar ninguém. Não via nada além de sombras e pessoas movimentando-se ao longe. Odair suava, suava e não importava o quanto andasse, parecia não chegar a lugar algum.

Depois do que pareciam horas vagando por aquele lugar abafado e mal cheiroso, Odair se deu conta, morrera e estava no inferno. Não era pra menos, concluiu. Aprontou tudo o que pôde em vida, só poderia ter ido parar no fundo das trevas.

Odair era um verdadeiro pulha. Sacaneou todas as pessoas que cruzaram seu caminho. Traiu Soraia, sua esposa e companheira de 32 anos, com todas as mulheres da cidade, talvez do Estado. Mentiu tanto que mal sabia diferenciar mentira de verdade. Odair enganou a família, os filhos, os sócios, roubou dinheiro, meteu-se até com políticos numa licitação para as obras de um hospital de velhinhos. Embolsou uma nota e guardou o dinheiro todo para si.

O pior de tudo é que Odair era tão dissimulado, mas tão dissimulado que todos o tinham como um homem íntegro, honesto, generoso. Um marido e pai de família exemplar. A Odair os vizinhos vinham pedir conselhos. Na igreja, o padre sempre citava Odair como sinônimo de boa conduta e modelo de fé.

No inferno, suando como nunca, naquela escuridão desoladora, Odair arrependeu-se de todos os seus pecados. Desejava profundamente a oportunidade de reparar seus erros e retratar-se com todos aqueles para os quais fizera algum mal. Principalmente Soraia.

Soraia era uma santa, era o que Odair sempre dizia. Mãe dedicada, botou no mundo e criou quatro filhos com pulso e amor na medida certa. Aos olhos de Odair, Soraia era uma verdadeira dama da sociedade. Enquanto esposa, exemplo de fidelidade e obediência.

Desesperado, sentindo-se sozinho e com medo, Odair amargou no inferno por dias. Em determinado momento, exausto, sentou-se no chão e colocou a cabeça entre as mãos quando de repente ouviu: “Odair, Odair, Odair”. Odair colocou-se rapidamente de pé, pensou que o capeta em pessoa viera para dar-lhe sua sentença definitiva. Olhou em volta e enxergou uma luz brilhante que vinha em sua direção, a sensação de calor começava a abrandar. A luz ficou tão forte, tão forte que Odair fechou os olhos com força. “Odair? Odair, meu amor, está me ouvindo?”.

Odair abriu os olhos e deparou-se com Soraia debruçada sobre ele, com lágrimas nos olhos. Soraia gritou para o filho mais velho que estava ali, ordenou que fosse chamar o médico, o pai finalmente acordara do coma.

Depois de entender que esteve por dias no hospital, tão forte fora a pancada na testa, Odair só queria saber de contar toda sua experiência de quase morte para Soraia. Queria contar-lhe todos os seus podres, pedir perdão. Na esperança que ela o perdoasse, Odair esperava mudar de vida e recomeçar.

Assim que ficaram a sós, Odair olhou profundamente nos olhos da esposa, segurou sua mão e disse com a voz embargada:

– Soraia, precisamos conversar.

Após escutar as revelações do marido, Soraia que parecia chocada, decidiu deixá-lo no hospital e ir para casa descansar e dormir um pouco. Deitou-se na cama do casal e de lá nunca mais se levantou. Ficou conhecida na cidade como a esposa que morreu de desgosto.

Abalado, porém já recuperado e de volta ao convívio social, Odair tratou de confessar todos os seus crimes. Devolveu quantias enormes de dinheiro que roubara em seus incontáveis golpes. Reconheceu a paternidade de 12 filhos que tivera com 12 amantes diferentes. Deu-lhes dinheiro para compensar os anos de abandono. Desculpou-se com antigos sócios, pediu publicamente perdão ao padre e aos fiéis da igreja em uma missa celebrada em memória de sua esposa e confessou tudo aos filhos. O objetivo de Odair era ser absolvido de todos os seus pecados e morrer em paz, como Soraia. Santa que era, morreu dormindo, convenceu-se.

Certa noite, Odair recebe um estranho telefonema. A voz do outro lado revela que precisa entregar-lhe algo importante e insiste para que se encontrem num campo de futebol, num bairro afastado da cidade. Já passava das 11 horas da noite quando Odair chegou ao local do encontro, ali estavam dois de seus antigos sócios. Odair passara a perna em ambos com um negócio envolvendo revenda de celulares “achados”.  Um dos homens olhou bem para Odair e disse com voz amedrontadora: “aqui está o que é seu por direito” e disparou três vezes contra o peito de Odair que morreu antes mesmo de seu corpo atingir o chão.

O plano de Odair não funcionou. Imediatamente ele reconheceu aquele lugar escuro, de odor pestilento, muito quente e barulhento. Estava de volta ao inferno. O que mais chateava Odair era o fato de nunca mais ver sua amada Soraia, a santa Soraia, como ele pregava sem parar. Foi por uma chance de encontrá-la no céu que Odair, sem sucesso, tentou redimir-se de todo o mal que causou.

Odair vagou solitário pelo inferno por um longo tempo, torturado com a idéia de nunca mais reunir-se com sua amada, mas de repente, vê ao longe, em meio aos outros andarilhos das trevas, uma silhueta inconfundível. Era ela. Era Soraia. Mas como? Soraia? No inferno?

Ele então corre desesperadamente ao seu encontro e quando finalmente consegue se aproximar da esposa, grita com todo o fôlego que lhe restava, apesar do calor escaldante:

– Soraia?!

Soraia vira-se para trás, olha fundo nos seus olhos e diz:

– Odair, precisamos conversar.

GANCHO

Gancho para bolsa

Tem coisas que são básicas, fundamentais para a vida, por exemplo: água. Sol. Amigos, natureza, ar, comida e ganchos. Sim, ganchos.

Por que alguém monta um banheiro, num bar, cinema, aeroporto, shopping, restaurante, etc, com vaso, pia, espelho, porta, enfeitinhos inúteis pelas paredes e não coloca ali um gancho? Mais especificamente, vamos focar na problemática envolvendo o cubículo. Um simples gancho é capaz de transformar mágica e drasticamente os minutos passados dentro de um cubículo de banheiro público.

Eu não poderia dissertar com precisão sobre a experiência dos rapazes e quais desafios eles encontram, mas posso falar por nós, moçoilas, que diante do chamado da natureza temos que fazer xixi num banheiro público. Em nome de todas nós, mulheres, àqueles que projetam e/ou executam os banheiros por aí, eu vos suplico: coloquem ganchos.

Um ganchinho que seja. Um. Custa? Pode ser daqueles de plástico que são colados na parede com uma fita dupla face. Pode ser um pedaço de arame improvisado, um prego assim meio torto espetado no reboco, mas por favor, coloquem ganchos.

Já é difícil pra chuchu para nós mulheres, fazermos um simples xixi enquanto temos que nos equilibrar sobre nossas nem sempre musculosas coxas, numa posição esdrúxula que é aquele meio termo entre cócoras e semi agachamento, dentro de um cubículo que muitas vezes mede menos que 1×1, cercadas por famigeradas e quase sempre xexelentas divisórias revestidas de fórmica ou feitas de placas grossas de granito cinza e branco. Exigir que nós, além de todo este dificílimo equilibrismo meticuloso, ainda tenhamos que segurar nossa bolsa, já é demais.

Sabia que mulheres pelo mundo a fora, de diferentes origens, culturas, credos e religiões, fazem xixi exatamente da mesma forma? Quando num ambiente onde um vacilo pode significar uma contaminação de proporções catastróficas ou letais, nós mulheres automaticamente dobramos os joelhos num ângulo específico que pode variar de acordo com os fatores peso e altura, posicionamos os cotovelos ou as mãos num determinado ponto das nossas coxas que foi evidentemente desenvolvido para este fim, e encostamos totalmente a planta de ambos os pés no chão de forma a nos proporcionar equilíbrio perfeito e segurança.

Fica a critério de cada uma o que fazer com o pescoço e a cabeça. A medida que ficamos mais experientes, nos tornamos capazes de alterar a ordem de todos os elementos descritos acima sem desviar o fluxo nem comprometer o resultado da missão.

Este ritual, este, do xixi feminino em banheiros públicos, é passado de geração em geração, é um balé, uma arte. Requer prática e habilidade que alcançam níveis de excelência poucas vezes vistos.

Permanecer nesta posição pelo período de tempo que nos é imposto pelo volume contido no reservatório, com a bolsa no chão (argh!) ou pendurada no pescoço, ou erguida num movimento digno de Cirque du Soleil por um dos braços ou até mesmo – conforme testemunho de uma companheira que não quer se identificar – apoiada no lombo, só não é o cúmulo do embaraço porque ninguém pode nos ver. Na maioria dos casos. Creio eu.

Devo dizer que muitas vezes somos salvas pela maçaneta. Mas desde que inventaram os trincos esta manobra vem minguando. Aquele delicado ferrolho de metal porcaria não suportaria nem um fio de nossos fabulosos cabelos, quem dirá o peso de nossas bolsas. Nossa criatividade já nos possibilitou diversas formas de inovação. Por exemplo, prender a bolsa na quina da porta, no espaço entre a dobradiça e o painel lateral do cubículo. Até mesmo o suporte de papel, dependendo do seu design e do tamanho da bolsa, pode servir como cabideiro. Já soube de mulheres que levam consigo o próprio gancho. Este é um problema comum à todas nós e as soluções encontradas ali, na hora do aperto, surpreenderiam o mais astuto engenheiro da Nasa.

Pode apostar que a primeira coisa que uma mulher, portando bolsas ou similares, faz quando vai ao banheiro é arquitetar rapidamente um plano de suporte para seus pertences que seja seguro e minimamente higiênico. Percebe? Como tudo seria tão mais simples se ali, naquele claustrofóbico toalete houvesse um elementar, o quê? Gancho!

E dizem que mulher é bicho complicado.

CURTINHA: LIMÕES

No supermercado, fui pesar uns limões.

Coisa mais sem propósito ter que pesar coisas antes de ir pro caixa, eu sempre tenho que atravessar o supermercado como uma maratonista porque esqueci de pesar o mamão e as batatas. O pessoal fica na fila do caixa me esperando pesar o mamão e as batatas.

Mas bom, não é sobre isso. Daí fui pesar os limões na hora certa de pesar os limões: antes de ir para o caixa.

Quase nunca eu confiro o que está na etiqueta que a pessoínha da balança gruda no produto. Mas neste dia dos limões, devido a alguma intervenção divina eu decidi conferir.

Notei que na etiqueta que a mocinha colocou sobre os meus limões constava outro tipo de limão que não aqueles os quais eu havia escolhido. Os limões que eu havia escolhido eram, na verdade, mais caros do que os limões que constavam na etiqueta. Bem mais caros.

Voltei até a balança e esclareci a questão para a mocinha que pesava preguiçosamente (compreensível…) os limões, mamões, chuchus, cebolas e pimentões de outras pessoas. “Moça, esse limão não é o tahiti”.

A moça pega o saquinho com limões da minha mão, examina, examina. Enquanto isso, os outros clientes aguardam pacientemente o esclarecimento da situação.
Ela examina mais uma vez, confere uma tabelinha gordurosa que está sobre a bancada e me entrega de volta o saquinho com limões.

Em virtude da minha acentuada expressão de incógnita, sensível, a mocinha percebe a necessidade de fornecer explicações.

Ela então posiciona a mão esquerda em forma de conchinha ao lado da boca e como se me contasse um segredo sujo, diz em tom não muito baixo: “deixa boba! O tahiti é mais barato!”, me dá um sorrisinho amigo barra malandro e coloca sobre a balança umas batatas do senhor de óculos e casaco azul que me olha com olhar marejado. Mentira essa parte do olhar marejado. Ele só me olha. O senhorzinho.

Daí você me pergunta: “nossa, Juliana, eram 3 mil dólares a diferença entre os limões?”

Não, eu te respondo. Não eram 3 mil dólares.

Mas assim… né?