GAFES

GoetheJohann Wolfgang von Goethe

No trabalho troquei e-mails por um mês com uma pessoa desconhecida, chamando-a respeitosamente de Mister, para descobrir, alertada pelo meu chefe, que na verdade meu correspondente era uma mulher.

Gudrun. Este era o nome dela. E ainda tive que ouvir que Gudrun é um nome super comum. No Brasil também. Super. Gudrun Maria da Silva. Já vi centenas. Essa era Bode. Gudrun Bode, a primeira alemã a receber um e-mail meu na minha primeira experiência profissional na Alemanha. Coitada da Gudrun. Chamei-a de Senhor Gudrun durante 6 e-mails.

O bom de cometer gafes quando se mora em um país que não é o seu, com um idioma que mesmo depois de quase um ano ainda parece um chiado alto de TV de tubo,  é que sempre se tem uma boa desculpa: ah, o frio. A comida. A cultura. O calcário na água. O sol que se põe tarde no verão. É só ter em mãos uma lista de fatores de estranhamento e problemas de adaptação e usá-lo quando tiver que explicar como foi que aquilo aconteceu.

Morando há oito meses na Alemanha eu já coleciono gafes. Depois da Gudrun, fui fazer uma chamada de vídeo com uma pessoa cujo nome era Mika. Pensei logo de cara: essa é mulher. Atendeu um rapaz de dois metros de altura, maxilar anguloso e voz de radialista. Tentando disfarçar o choque sorri e disse: “olá Maika”, com aquela certeza que estava arrasando na pronúncia, ao que o rapaz nórdico responde: “se fala Mi-ka, é finlandês”. Amigo. Aí você me complica. Essa gafe foi um combo. Duas em uma.

Meu chefe chama-se Ingo. Meu pai teve cães Pastor Alemão a vida toda. Um deles se chamava Ingo, porque o meu pai um dia resolveu que os pastores deveriam ter nomes alemães. O que eu fiz? No primeiro dia de trabalho? Exato. “O cachorro do meu pai também chamava Ingo!” Falei para Ingo, o boss. Vida que segue, emprego também, graças a Deus.

Mandei um sonoro não para a caixa do supermercado quando ela, sorridente, me disse “volte sempre”. Entendi que ela estava me oferecendo o recibo. Nunca mais ela me mandou voltar sempre. Se pudesse me mandava voltar nunca.

Ao comprar roupas numa loja, a moça do caixa me perguntou – utilizando-se de muitos gestos – se eu queria levar os cabides das roupas (nunca vi isso, mas…), agradeci e disse que não. Como fui capaz de entender a pergunta, saí dali achando que um romance de Goethe tinha sido descarregado no meu cérebro instantaneamente, esta é a única explicação. De tão segura que me senti com o idioma naquele momento, fui a uma sorveteria e pedi “em alemão” uma bola de sorvete de menta no copo. O sorveteiro entendeu que eu estava querendo uma pizza. Quem estava em volta não entendeu nada.

Tentei explicar para o moço que vende kebab que eu havia lhe dado 20€ e não 10€, e que o troco estava errado. Foi tão difícil que eu quase desisti. Precisei de dois outros clientes para explicar a situação. No fim, o troco estava certo. Eu que havia esquecido que também pegara uma cerveja. Aí o problema já não reside no idioma, convenhamos.

Quem não se perde no metrô? Eu me perco. E me perdi. Numa estação que tem uma espécie de ponte que você usa para atravessar de uma plataforma para outra. Passei na ponte para lá e para cá tantas vezes que um mendigo me ofereceu ajuda.

Por falar em mendigo, abordada poucas vezes pelos poucos mendigos ou pedintes que vi, tentei usar a falta de conhecimento do idioma como desculpa. Em vão. Mendigo aqui é bilingue. Troca de idioma assim que percebe que não vai tirar nada de você em alemão. Certa vez, comentei com um colega no metrô que o pedinte parecia na verdade, drogado. Em inglês. Quem ouviu? O pedinte. “Não estou drogado, só estou com fome” ele respondeu. Senti olhares de reprovação de todos os passageiros do vagão. Dei 3 Euros.

Recebi uma carta do banco avisando sobre a cobrança de uma taxa. Liguei esbravejando, acusando o banco de aproveitar-se da ignorância dos clientes internacionais para cobrar-lhes taxas. O homem do outro lado da linha escutou pacientemente e quando parei de gritar ele disse em tom de voz educado: “por favor, leia a linha de baixo. Está escrito em inglês”. E ainda me cancelou a taxa. Foi ótimo, com o dinheiro comprei uma fita para colar a minha cara de volta no lugar depois que ela caiu no chão.

Eu e minhas gafes. Pelo menos até que me acostume com o frio, com a comida, com a cultura, com o calcário na água e com o sol que se põe tarde no verão, terei um indulto para elas.

Aliás, disse Goethe: “não esquento mais a cabeça com as minhas gafes. Tiro proveito delas”. Logo… ah não, espera. Acho que foi a Luciana Gimenez.

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CURTINHA: INVASÃO

Quando volto pra casa, da rua vejo a janela do meu quarto. Eu sempre acho que larguei a janela aberta. Sempre. 100% das vezes. Mas meu medo nunca se confirma, a janela aberta sempre é a janela de um dos vizinhos, sempre.

Sempre menos hoje. Hoje era a minha mesmo.
Resultado: todas os insetos da Alemanha e região agora moram comigo.

Já chamei os entomologistas, pois é um fato que aqui estão algumas espécies não catalogadas. Várias. Quiçá até alienígenas.
Um deles me olha nos olhos. Com certeza é o chefe do bando. Estão planejando um atentado. Não duvido que amanhã, na melhor das hipóteses, eu acorde lá fora na grama.

Já pedi para saírem, mas fui ignorada solenemente.
Não pude observar nenhuma aranha, o que é quase uma boa notícia.
Muitos voam, muitos. Vários estão pelas paredes, alguns pelo chão e encontrei dois dentro do box do banheiro. Me sinto numa festa estranha com gente esquisita dentro da minha própria casa.

Terei que aspirar um a um, promovendo uma chacina que vai contra os meus princípios, mas sou eu ou eles. Ou elas. Porque com certeza tem fêmeas. E devem estar grávidas de nano-insetinhos, porque aqui nessa primavera germânica, flora e fauna só têm um objetivo: reprodução.

Posso também tentar dividir o espaço por alguns dias. Não tem aranha, então tá bom.

Um deles, o cara cujas antenas têm cachinhos na ponta, pousou no teclado do computador. Por enquanto está quietinho, mas se ele se mexe,djkkcsbcs;djbsdcbds;suow pj wowo qp[p[[ 1l12kl223k23jl.

VOA, CIDINHA

Voando

Cidinha era agente aeroportuária. Trabalhava havia muitos anos numa renomada empresa aérea num importante aeroporto do país. Era uma pessoa muito calma, simples e pouco exigente, mas Cidinha tinha um sonho: viajar de avião.

Ao contrário do que se espera de um funcionário de companhia aérea, Cidinha nunca havia posto os pés numa aeronave. Ao longo dos seus anos de carreira assistiu passageiros partindo e chegando todos os dias, mas ela mesma nunca teve tempo ou condições financeiras ideais para voar, apesar das facilidades inerentes ao cargo.

Cidinha era dedicada à sua numerosa família e sempre foi muito, muito generosa. Era conhecida por compartilhar suas economias financeiras sem cobrar a devolução do dinheiro nem mesmo de parentes mais distantes, amigos ou vizinhos. Cidinha sempre colocava as necessidades dos outros em primeiro lugar, como quando ajudou nas despesas do casamento da irmã com um ex-presidiário, comprou uma moto nova para que o sobrinho pudesse entregar comida chinesa e pagar a faculdade, arcou com o tratamento dentário do tio Alceu, que morava no interior e não tinha condições de salvar os últimos dentes que lhe sobravam na boca.

Cidinha era empreendedora. Certa vez foi convencida pelo irmão mais novo a investir em sua startup de venda online de ar puro enlatado para o Japão. Parece que o mercado nipônico não aceitou bem a ideia, e Cidinha perdeu todo o aporte. A verdade é que Cidinha realizava os sonhos de todas as pessoas antes de realizar os seus próprios.

Mas este ano seria diferente.  Cidinha finalmente viajaria de avião. Depois de tanto esperar, quis realizar o seu sonho em grande estilo, ia passar 20 dias na Itália, voando de primeira classe e se hospedando num fabuloso hotel 3 estrelas na Toscana. Depois de tanta economia, este seria o investimento de Cidinha em si própria.

Poucos dias antes da tão sonhada, tão aguardada viagem de férias, Cidinha recebeu uma inédita incumbência: verificar determinados dados com o chefe da manutenção, Airton. Airton estava trabalhando em uma das aeronaves da companhia estacionada dentro do hangar, e foi assim que Cidinha colocou os pés dentro de um avião pela primeira vez.

Ao entrar pela porta dos fundos do avião, depois de subir os estreitos degraus de uma mambembe escada metálica, Cidinha mal podia acreditar no que estava vendo. Percorreu com os olhos o iluminado corredor entre as poltronas que parecia infinito, nesta hora já tinha os olhos cheios d’água. Por mais imagens ou vídeos que tivesse visto, jamais poderia imaginar tal grandiosidade. Ficou emocionada com a ideia de um reles humaninho ser capaz de fazer voar uma máquina daquelas proporções.

Cidinha, funcionária dedicada, procurou deixar a emoção de lado e foi em busca de Airton que, segundo os outros técnicos, estava na cabine. Para encontrar Airton, Cidinha precisou atravessar o avião de cabo a rabo. E lentamente caminhou por entre as cadeiras, prestando atenção na textura do carpete, passando a mão pelo estofamento dos encostos, deslizando os dedos nos altíssimos bagageiros abertos sobre sua cabeça, apreciando cada detalhe.

Ficou impressionada com o encaixe perfeito de todos aqueles aparatos na copa que encontrou no meio do caminho. Podia ver a marca de café no fundo das jarras nas cafeteiras, podia sentir o cheiro das refeições aquecidas ali. Embora tão pequenos como na casa de sua prima Alzira, os banheiros lhe pareciam suficientemente bons, e era incrível que tinham água quente e trocador para bebês.

Quando alcançou a primeira classe, Cidinha pensou que estivesse entrando num palácio do futuro. Eram espantosas aquelas traquitanas todas. Ela finalmente entendeu o que era o “conforto extra” que tanto ofereceu aos passageiros no momento do check-in.

Airton acenou com a mão, cumprimentando Cidinha enquanto apanhava uma ferramenta bonita na grande maleta metálica aberta no chão, ela caminhou mais depressa para tratar logo do assunto que a levou até ali, embora não sentisse a menor vontade de sair daquele ambiente e voltar para trás do balcão no aeroporto onde, minutos antes, uma passageira reclamava da falta de papel higiênico no banheiro.

Cidinha hesitou por alguns segundos antes de entrar na cabine, esperou que Airton, sentado na cadeira do copiloto, a chamasse para mais perto, a fim de lerem juntos alguns relatórios. Tamanho foi o choque de Cidinha ao entrar na cabine do avião e observar todas aqueles luzes e todos aqueles botões, que precisou sair dali carregada. Naquele momento Cidinha teve uma epifania. Nunca enxergou tudo com tanta clareza. Nunca teve tanta certeza de que vivera toda a vida para chegar naquele momento.

Foi assim que descreveu ao médico da companhia aérea que a atendeu na sala de emergência do aeroporto, como um choque que percorreu todo seu corpo, desde os pés, terminando com uma estilingada bem no meio da testa. Mais tarde neste dia, Cidinha explicou para os colegas de trabalho preocupados com as condições de saúde da moça, que havia literalmente sentido a ficha cair.

Pois no dia seguinte Cidinha pediu as contas. Antes de sair do sistema da companhia aérea, fez alterações nas reservas e presenteou uma amiga querida que se casaria no final daquele ano e passaria a lua de mel em Serra Negra, com as passagens para a Itália e a reserva do hotel na Toscana.

Na sala de casa, reuniu toda a família, os amigos, os “muy amigos”, os vizinhos, e todos aqueles para os quais havia emprestado dinheiro e comunicou, com inédita firmeza e seriedade na voz:

– Atenção! O banco fechou! Acabou o crédito para negativado sem comprovação de renda! Agora é a minha vez. Agora o sonho que vou realizar é o meu.

– Mas Cidinha – perguntou um primo de terceiro grau abusado – como é que tu vai voar de avião agora, que pediu as contas? Tu só vai voar se for de teco-teco! Levando todos às gargalhadas.

– Eu não vou voar de avião, primo. Eu vou voar o avião.

NEIN

Nein!

Vou me virando por aqui, na Alemanha, enquanto não domino o idioma – coisa que certamente irá acontecer dentro de dois ou três… séculos.

O difícil não é a parte de elaborar frases simples como “por favor, um café e um sanduíche de queijo”. O duro mesmo é o que vem depois disso: as perguntas. Não importa o quão direta ou objetiva ou decidida eu seja na hora de, por exemplo, pedir algo para comer, sempre me fazem alguma pergunta que soa mais ou menos assim: “schulendermithauffenhausenschatstern?”, bote aí bastante garganta arranhando e sons graves vindo da lateral esquerda do esôfago que um latino dificilmente conseguirá reproduzir.

Pra sobreviver e tornar o analfabetismo menos doloroso no dia a dia, fui desenvolvendo técnicas e lançando mão de truques. Logo após pedir algo numa padaria ou lanchonete, é comum o atendente perguntar se é para comer ali ou para levar, então já embuti no pedido a frase que explicita meu desejo de comer ali, ou longe dali. Isso elimina quaisquer outros questionamentos por parte do alemão atrás do balcão? Não. Mas em poucas semanas creio que cobrirei tudo, como por exemplo: “Açúcar? Quer o café forte? Pequeno ou grande? No copo de papel ou quer comprar esta linda caneca por €2 e deixar de produzir lixo?”. É uma luta diária, mas estou confiante.

No supermercado – destino frequente de quem precisa economizar cada centavo – o grande lance é a nota fiscal. Aparentemente não é automático, como é no Brasil, o caixa entregar a nota de compra logo que esta é finalizada. Depois de pagar, você normalmente é perguntado se quer a nota ou não. Numa próxima vou contar detalhes sobre o stress que é passar as compras no caixa de supermercado. Isso por si só dá uma crônica, um conto, um livro, um romance, uma tese de mestrado.

Logo após minhas primeiras incursões aos supermercados Hamburgueses em busca de comida boa e barata, aprendi que existem 326 formas diferentes de perguntar “quer sua nota fiscal”? Obviamente desisti de entender todas elas e assumi que esta é a única frase possível de ser ouvida após as compras.

Enfim, já treinada, independentemente da forma que me é feita a pergunta, respondo  de forma automática sim ou não para o recebimento da nota. Sempre funciona? Não.

Na última segunda-feira a caixa ficou bastante perplexa diante do meu sonoro “nein”. Eu não entendi o porquê do choque, até que, com a ajuda de uma nova amiga alemã, descobri que, na realidade, o que a sorridente caixa do supermercado me disse foi: “volte sempre”.

Eu basicamente arruinei o meu relacionamento com a caixa do supermercado perto da minha casa. Mas tudo bem, assim que eu dominar o idioma, eu explico tudo pra ela – coisa que certamente irá acontecer dentro de dois ou três… séculos.

CURTINHA: DESAFIO

Minha irmã me propôs um desafio: que eu parasse de reclamar durante uma tarde inteira.

Não sei de onde ela tirou que eu reclamo. Eu apenas observo o comportamento estapafúrdio e inconveniente de algumas pessoas e eventualmente verbalizo para quem está próximo, o resultado das minhas análises. Mas ela, jovem ainda, com apenas 19 anos, acha que eu reclamo demasiadamente. Fica evidente que minha irmã pouco entende das coisas da vida e do universo dos adultos.

Eu então teria que passar toda uma tarde impedida de reclamar de qualquer pessoa ou situação, por mais esdrúxula que fossem. Caso não conseguisse cumprir o tal desafio, deveria pagar à ela uma “multa” (lê-se extorsão) de R$50.

Pois talvez você queira saber se deu certo. Mas é evidente que deu!

O aplicativo para celular do meu banco é ótimo. Pouco depois das 18 horas o dinheiro já estava em sua conta.

NA PRÓXIMA VIDA

Reencarnação

Na próxima vida eu quero saber, aos 23, tudo o que eu sei aos 33.

Aos 30 quero olhar para trás e pensar: “nossa! Tô arrasando!”. Quero ter a sensação que o tempo está sobrando. Não o contrário.

Na próxima vida eu quero falar tantos idiomas quanto achei que falaria nesta. Quero poder repetir destinos de viagem porque, afinal, terei tempo para visitar todos os cantos do mundo e voltar nos melhores deles.

Na próxima vida quero ter 10 centímetros a mais e usar umas roupas que eu não posso usar nessa vida, por que tenho 10 centímetros a menos.

Na próxima vida eu quero desde cedo saber que eu posso ser quem eu quiser, ainda que seja uma mulher. Ah, é! Na próxima vida eu também quero ser mulher.

Na próxima vida eu espero não ter mais que ficar explicando (nem entendendo) o que é feminismo.

Nem misoginia. Nem homofobia. Nem racismo. Nem machismo. Nem extremismo.

Nem vegetarianismo.

Na próxima vida eu já quero vir sabendo que tem que poupar 10% do salário e começar a poupar 10% mesmo antes de ter salário.

Na próxima vida, aos 30, eu já vou esbanjar uma bela carteira de investimentos, um passaporte abarrotado de carimbos, um currículo bem gordo cheio de cursos e experiências e uma pele de quem começou, aos 25, a usar cremes anti-idade.

Na próxima vida eu posso até vir com o mesmo cabelo, mas com um terço a menos em quantidade.

Na próxima vida eu quero ser uma pessoa muito cool. Vou velejar num barco de casco azul, dirigir um Land Rover e cuidar de bebês rinocerontes na África. Quero fazer expedições e ter fotos na National Geographic. E surfar. Na próxima vida eu vou surfar.

Antes de entrar na faculdade da próxima vida, vou passar um ano como voluntária em algum lugar que precise muito de uma voluntária.

Na próxima vida eu terei um cachorro chamado Fünf.

Na próxima vida já quero vir chipada. Já pensou cada upload?!

Na próxima vida já quero vir chipada. Já pensou cada download?! De tempos em tempos jogar fora as tranqueiras da cabeça tudo.

Eu não vou assinar a NET na minha próxima vida.

Na próxima vida eu preciso ter menos manias. Não que eu queira, mas eu preciso.

Na próxima vida eu quero encontrar todos os amigos dessa vida de agora. Posso até fazer amigos novos, amigos da próxima vida, só para poder apresentar para os amigos dessa.

Na próxima vida quando eu amar alguém não vou fingir que não amo. Já vou logo avisando: “ó, tô amando!”.

Na próxima vida eu vou esperar até uns 27 para fazer a primeira tatuagem. Mas acho uma boa já começar a fazer terapia aos 23.

Na próxima vida eu quero entender sobre política muito antes de começar a votar. Na próxima vida eu vou votar assim que puder.

Na próxima vida eu quero não saber quem foi Trump. Nem Bolsonaro. Nem PT. Nem PSDB. Nem P coisa nenhuma.

Na próxima vida eu quero ter que olhar no dicionário para saber o que é corrupção.

Na próxima vida eu quero nascer exatamente no lugar aonde eu não vou querer morar, assim posso mudar para onde eu quero muito morar e ser muito feliz de morar lá só porque eu escolhi que era lá que eu queria morar.

Na próxima vida eu pretendo pagar o IPVA do carro direitinho.

Na próxima vida eu não quero ter medo de aranha.

Eu quero beber água de coco desde cedo, na próxima vida.

E também quero vir com um fígado reforçado. Vou entrar na Gim-tônica antes dos 33.

Na próxima vida eu não vou ser capaz de engordar. Pronto. Simplesmente. Não engordo. É isso.

Na próxima vida eu quero suar menos. E quero continuar gostando do inverno.

Tomara que na próxima vida ainda seja moda usar saia com meia-calça. Se não for, vou usar assim mesmo. Vai que eu lanço moda e ainda posso chamar de retrô.

No final da próxima vida eu quero ter cabelos branquinhos, usar grandes óculos coloridos e fazer cerâmica por hobby nos fundos da minha casa amarela na Toscana.

Na próxima vida eu acho melhor eu fazer as coisas nessa própria vida ao invés de ficar pensando o que fazer na próxima depois dela.

GLADIS

imortal

Gladis completou 168 anos na última quarta-feira. Dois dias antes de sua morte.

Os médicos, isso lá em 1849 quando Gladis nasceu, avisaram logo a família que havia algo estranho com a menina. Mas não se sabia o que era. Quando Gladis chegou aos 8 anos, devido aos avanços da medicina e da botânica, o Dr. Hanz Zinza finalmente descobriu o distúrbio e comunicou: Gladis fora assolada por uma raríssima síndrome, a imortalidade crônica. Gladis era literal e definitivamente imortal.

Segundo Dr. Zinza, Gladis desenvolveria-se normalmente até cerca de 31 anos e depois permaneceria igual, para toda a eternidade.

Durante anos Gladis procurou saber mais sobre a sua condição. Viajou o mundo, submeteu-se a incontáveis exames, virou cobaia, objeto de estudo, atração de circo, mas nunca descobriu nada muito além das alegações de Dr. Zinza.

Tudo o que Gladis queria era morrer. E não foi por falta de tentativas, ela se jogou na linha do trem, pulou da ponte, cutucou uma onça com vara curta, esturricou no deserto do Saara, mas nada levou de Gladis a vida que ela tanto menosprezava. Gladis achou que jamais conseguiria conquistar o sonho do descanso eterno.

As implicações da imortalidade são inúmeras, mas a que mais enervava Gladis era não envelhecer fisicamente. Pois o enxuto e saudável corpo de formas arredondadas e firmes de 31 anos de Gladis, abrigava atualmente uma mente cansada e rabugenta de uma relíquia humana de mais de 150 anos.

Gladis queria cabelos brancos, queria dores nas articulações, queria calos nos pés, verrugas no nariz. Queria ser preferencial na fila do supermercado, usar a vaga para idosos, ganhar descontos e a paciência das pessoas a sua volta. Pode parecer horrendo, mas como qualquer coisa na vida que não se tem, era o que Gladis queria. Envelhecer. Mas Gladis não podia.

Viu todos a sua volta partirem, festejou algumas perdas, lamentou outras. Viu as guerras, viu barbáries, viu os avanços exponenciais da tecnologia, viu o mundo mudar. Gladis viu tudo, menos um fio de cabelo branco brotar-lhe no alto da cabeça.

Amores? Gladis teve muitos, vários. Ela não complicava. Nem se apegava. Ia até onde dava e depois sumia no mundo sem dar explicações. Gladis viajara o mundo todo.  Três vezes.

Uma das diversões de Gladis era suscitar, durante reuniões com amigos, a discussão sobre o que eles fariam caso fossem imortais. Ela adorava rir das respostas tolas e aproveitava para pegar algumas ideias para si própria. Quando perguntada sobre o que faria caso fosse imortal, Gladis sempre respondia que passaria a eternidade tentando descobrir uma forma de morrer, levando todos às gargalhadas, mas Gladis não achava a menor graça.

Em busca de respostas, da cura, de casos parecidos com o seu, ou da descoberta de uma maneira de ser vencida pela finitude, Gladis subiu ao topo dos montes mais remotos do planeta procurando por sábios, budistas, hinduístas, xamanistas. Visitou os mais renomados cientistas, esotéricos, umbandistas e religiosos. Seguiu céticos, mágicos, políticos, sacerdotes, curandeiros, charlatões. Ninguém nunca conseguiu revelar o segredo da mortalidade de Gladis. Certa vez, a chefe de uma tribo nativa da parte mais longínqua da África, disse à Gladis que ela finalmente morreria quando realmente fizesse tudo aquilo que tinha que fazer.

Convencida de que não havia mesmo solução para sua condição eterna, Gladis decidiu buscar por outro sentido para a vida que não a morte. Escreveu livros, ajudou pessoas, plantou árvores, doou sangue, doou um rim – que nem lhe fez falta já que seis meses depois havia outro no lugar. Gladis deu cursos e palestras. Protegida pela impossibilidade do fato, adorava ver todos da plateia rirem quando afirmava ser imortal.

Gladis completou 168 anos na última quarta-feira. Dois dias antes de sua morte. Ninguém sabe ao certo o que aconteceu, Gladis foi encontrada em sua casa, com semblante tranquilo, sentada no sofá. Em suas mãos havia um livro cujo título dizia: 1001 coisas que você precisa fazer antes de morrer.

CURTINHA: OFTALMO SINCERO

Fui ao oftalmologista. Não ia há séculos, estava certa que sairia de lá com um belo par de fundos de garrafa.

– Visão de águia! – Exclamou o médico, pra lá de seus 60 anos, ao atestar minha capacidade de identificar letras do tamanho de grãos de arroz, projetadas numa parede a 2 metros de distância.
– Aahh – suspirei desapontada.
– Ué! Ficou triste por quê?
– Bem que eu queria usar óculos. Acho charmoso.
– Moça – tirando os óculos e esfregando os olhos, demonstrando certa impaciência – você precisa de um psiquiatra, não de um oftalmologista.

Credo gente! Pensei.

Sai de lá com uma receitinha mequetrefe de colírio e com a certeza que cega não estou, mas doida…

TE CONTEI?

Da Suzan, a bicicleta?

Sorteio de rede social é a coisa mais insólita que existe. Quando é sério mesmo tem oitocentos mil participantes e as suas chances de ganhar alguma coisa são menores que mínimas.

Ciente deste fato, decidi participar do sorteio de uma bike fabulosa via Instagram. Era fim de ano e o sorteio seria realizado “ao vivo” na própria rede social em janeiro. Fiz o que mandava o regulamento e esqueci completamente.

Eis que em janeiro, enquanto estava na casa de um casal de amigos na praia, fui dar aquela sapeada à toa no celular quando percebi o maior estardalhaço no Instagram. Mil notificações, mensagens, um escândalo, o maior incêndio e eu lá na janela, tomando uma brisa do mar.

No vídeo, publicado pelo pessoal da loja de bicicletas, tiraram um papelzinho dobrado de dentro de um pote de vidro e abriram o papelzinho para a câmera, e o que estava escrito no papelzinho? Meu nome. O meu nome. Meu. Nome e sobrenome. Era eu! Mesmo.

Você já ganhou algo num sorteio? Pois antes disso eu nunca ganhei nada num sorteio. Nada. Nem panela de pressão em sorteio de quermesse. A emoção foi tanta que dei um grito que pode ser ouvido no Chile.

Não satisfeitos em me dar uma bicicleta de presente, me deram uma bicicleta personalizável. Fui até a loja, mandei montar a bike do jeito que eu quis e saí de lá pedalando. Pensa numa criança que ganhou o presente de Natal mais legal do planeta. Era eu pedalando a Suzan. Dei esse nome pra ela, Suzan.

Fui parada algumas vezes por pessoas querendo comprar a Suzan. Uma vez quase pensei em vender mas o cara chamou Suzan de “rosa”. Suzan não era rosa, era branca. Eu e Suzan, a bicicleta branca, fomos muito felizes saracoteando juntas pelas ruas e ciclovias de São Paulo.

SuzanSuzan.

COOKIE

cookies

Foi a primeira vez que eu precisei usar aquele saquinho de emergência do avião. Sabe aquele saquinho? Que fica no bolsão da poltrona a sua frente, para, digamos, emergências? Então, esse.

Entrei no avião e logo acomodei-me na minha poltrona na janela. Anos viajando a trabalho duas vezes por mês me encheram de manias, como por exemplo voar sempre do lado direito e na poltrona F. De preferência na 24. 24F. Psicoses à parte, observava distraída os funcionários do aeroporto finalizarem os procedimentos de solo, circulando como formiguinhas atarefadas em torno do avião, quando ao guardar o celular encontrei um cookie na minha bolsa.

No dia anterior, enquanto me aventurava pelas ruas do centro de Curitiba, deparei-me com um café esquisitíssimo. Parecia um daqueles saloons que a gente vê em filme de velho oeste americano, com um ar meio assombrado, meio abandonado. Parei em frente para pensar se deveria mesmo entrar, quando de lá de dentro saiu um grupo de jovens barulhentos e animados. Me senti encorajada e entrei. Ali tomei um delicioso espresso duplo e comi um pão de queijo. Um cookie cheio de bolas gigantes de chocolates assobiou para mim. Só sei que o tal do cookie foi parar na minha bolsa, pernoitando ali discretamente até ser redescoberto na poltrona 24F do voo Curitiba São Paulo.

Aquela hora não poderia ser mais apropriada para encontrar um cookie de chocolate. Foi como encontrar R$100 no bolso de um casaco quando se está muito sem grana. O voo era num horário estapafúrdio, comer uma guloseima fora de hora parecia uma ideia fabulosamente fabulosa.

Dei uma dentada caprichada no cookie. Digna de nota. As enormes gotas de chocolate, embora amanhecidas, pularam do biscoito direto para as minhas papilas gustativas, me levando a fechar os olhos involuntariamente, tal deleitosa sensação de prazer. Mastiguei, mastiguei e concluí que o cookie era muito doce. Bom, mas muito, muito doce.

Não deu tempo de o cérebro processar a informação “pare de comer agora, alerta de doce extremo, alerta de doce extremo” e meus braços levaram o biscoito, cujo invólucro, um papel engordurado, encontrava-se quase totalmente destruído, diretamente para a minha boca. Mais uma dentada que só não acabou completamente com o disco açucarado pois aquilo era realmente um super cookie.

Mastiguei, já meio de má vontade, o que agora deixara de ser um saboroso cookie e tornara-se uma bola de açúcar União. Nesse meio tempo o avião já havia decolado e provavelmente sobrevoava Registro. Todos os passageiros em silêncio, aquele voo tranquilo e eu ali com aquele treco soltando farelo pra tudo que é lado, as mãos completamente engorduradas, fazendo um esforço enorme para engolir aquela última e fatal mordida que eu dera de forma tão imprudente.

Só sei que lá por Juquitiba aquilo foi me embrulhando, me embrulhando, não duvido que eu estivesse ficando esverdeada. Permanecia imóvel em meu assento para evitar arremessar migalhas no distinto senhor que estava ao meu lado, mas ia ficando cada vez mais desesperada sem ter aonde por aquele cookie cujo cheiro melado me embrulhava mais e mais. A comissária mais próxima estava ocupada com o serviço de bordo relâmpago da ponte aérea, não podia pedir ajuda a ninguém.

Estava chegando no limite quando avistei, penduradinho próximo aos meus joelhos, o saquinho plástico na cor branco celestial. Nele estava escrito em azul: “feel better” e havia uma carinha sorrindo logo abaixo. Que amável aquele saquinho! Um salvador! Não tive dúvidas, passei para a mão esquerda as migalhas que equilibrava na direita, entrelacei os dedos de modo a segurar o que restava do papel engordurado com um pedaço remanescente daquele biscoito do capeta e inclinei o corpo ligeiramente para frente, o suficiente para agarrar o saquinho providencial que facilmente soltou-se do elástico frouxo do bolsão do encosto da cadeira da frente.

O homem elegante que estava ao lado me olhou de soslaio. Pude sentir a vibração de seu pânico vindo em minha direção, ele usava um elegante paletó azul petróleo de veludo.

Os cinco dedos da minha mão direita, a única disponível, multiplicaram-se por 3 quando não sei como, consegui abrir a boca do saquinho plástico. Nessa altura a moça sentada no corredor ao lado do homem de paletó e a moça do corredor da outra fileira já assistiam a cena com expressões desafortunadas. Ágil, muito ágil, descarreguei tudo no saquinho branco.

Tudo. Foi a embalagem de papel, foi o último pedaço do cookie, foram as migalhas, o guardanapo amassado, uns pedaços do biscoito que já estavam escapando por entre os dedos, tudo. Tudo o que tinha nas mãos. Tudo aquilo de que desejei tanto me livrar. Deu até para usar a mão direita para dar uma “varridinha” na palma da mão esquerda e me livrar de todo e qualquer vestígio daquele cookie asqueroso e de seu cheiro enjoativo. Assobiando, fechei o saquinho que estava elegantemente apoiado sobre minhas pernas com o cordão que existe ali para este propósito e respirei aliviada. Respiraram aliviados também o paletó azul petróleo de veludo, o homem elegante e as moças do corredor.

Foi parar de sentir aquele cheiro nauseante que já comecei a voltar ao normal. A comissária agora aproximava-se com seu carrinho metálico, oferecia para os passageiros um pacotinho com sabe-se lá o que dentro, aquilo é uma loteria. Eu queria mesmo era água. Um copão de água gelada. Fiquei animada quando ela finalmente dirigiu-se a mim. Antes mesmo que eu pudesse transmitir-lhe meu desejo, ela sorriu roboticamente e disse:

Cookie senhora?